Confira o texto escrito por Katia Bizinotto, publicado no jornal da MOSTRA LATINO-AMERICANA DE TEATRO em SP
É PRECISO FURAR O CONCRETO - POR KATIA BIZINOTTO
Ganha cada vez mais espaço a discussão do direito à publicização do
privado. Se a sociedade começa a vivenciar essa questão agora, no âmbito do teatro
ela acontece desde sempre. Embora a função do teatro não seja messiânica, o
resultado prático o é. Quando feito considerando-se o público como seu
destinatário, ainda que não pelo espírito cristão, oferece a possibilidade de
se comemorar a salvação de alguém do suicídio. Ou, ainda, como o grupo Teatral
Henrique Artes, de Angola, demonstrou no palco: a alegria por ter dado, a
partir do teatro que esses artistas protagonizam a possibilidade de escolha a
um criminoso de ser, para além de um ex-criminoso, público de teatro.
Se a sociedade não é só a pólis e nem só a família, mas sim a junção de
ambas, suas ações e relações, torna-se fundamental um encontro latino- americano
no teatro para reconhecermos lutas de cada grupo, sua inserção em cada país de
origem, em suas cidades e bairros. Percebemos muitas questões em comum e modos particulares
de encará-las. E assim podemos novamente colocar a dicotomia entre o público e
o privado, uma vez que existem questões que, apesar de serem públicas, são
trazidas à cena de modos bem particulares, conforme o entendimento, modo de
criação e produção de cada grupo.
Partindo da experiência que vivenciamos com nosso espetáculo Estranhas
galinhas, apresentado no “porão” do Centro Cultural São Paulo, a sala Adhemar
Guerra, nos sentimos cumprindo um pouco da “missão” e do serviço que
pretendemos seguir prestando à sociedade. Estar num espaço duro e oprimido pelo
concreto, no subsolo da cidade que não para nunca veio a calhar com a poética, estética
e temática do espetáculo e nos provocou a furar os concretos para estabelecer a
relação com a platéia, o que sempre buscamos.
A contemporaneidade nos obriga a
refletir sobre a condição humana.
O fato é que os germes da sociedade estão na família e se conseguirmos
enxergar o lar com a dimensão de uma nação é possível entender que as formas de
condução desta família, a participação de cada ente, suas relações de poder e a
aceitação ou não da diversidade individual e coletiva são o que a conduzirão para
o aprisionamento total ou à liberdade.
No lar se exercita pensamento político, e se revolução pressupõe rompimento
do velho para criar o novo, sem transição, vemos que no lar já não há esta
possibilidade. Não dá para negar o passado, mas dá para transformar aos poucos
o presente e, a partir de si mesmo, interferir nos outros e, quiçá, transformar
um coletivo.
É preciso mais que nunca no teatro buscar a ética pessoal para uma
renovação da ética coletiva. De fato não dá para desconsiderar nada que está ao
nosso redor - e o nosso redor se inicia a partir de nós como indivíduos. Na
medida em que cada grupo, em sua prática cotidiana, vive e trabalha de acordo
com seus princípios ele fomenta um movimento em direção à ética e à liberdade.
Durante esses dias de compartilhamento da prática privada de cada grupo,
tornando-a pública entre os colegas de ofício, é possível dizer que vivenciamos
a publicização do privado no teatro que já é, na sua essência, uma arte
pública.
maiores informações: www.mostralatinoamericana.com.br