Delicada luz e delicado cenário para agressivos acenos de manipulação e controle da natureza frágil da pessoa em jogo definido. Assim é enredado o público que vai assistir ao espetáculo “Estranhas Galinhas”, do Grupontapé, de Minas Gerais que se apresentou no Espaço Cultural São Paulo - Sala Ademar Guerra, no dia 21 de abril de 2010, às 18 horas, durante a V Mostra Latino Americana de Teatro de Grupos.
O continuado trabalho de quinze anos do Grupontapé, plantado em Uberlândia, parte da pesquisa e difusão das artes cênicas em que revigora diferentes linguagens, particularizando as manifestações populares, do que é posto em cena.
A peça escrita por Fernando Limoeiro arrasta fichas de Garcia Marquez para “Um homem muito velho com suas asas enormes”, mas também pode-se perceber, talvez no inconsciente da criação, memórias literárias de Garcia Lorca, com suas mulheres secas e fechadas para a vida da felicidade, aforadas ao contexto de fervor religioso e moral conservadora. Há ainda, talvez, sementes da “flor de obsessão” que carrega traços de relações particularmente incestuosas para não perder-se do traçonelsonrodrigueano.
Três mulheres são três personagens em busca de um autor que corrompa seu velado e expiado senso de prazer interdito. Coisificadas no hábito e cotidiano da rudeza da vida rural e bugre, confessam orações vazias de razão, mas preenchidas de fé cega apregoada na culpa, remorso e desejos encolhidos à memória de sensibilidades violadas. Divididas entre o sacro perseguido e o profano almejado perdem-se entre a loucura e a traição dos instintos naturais quando têm que conviver, com ouvidos bem atentos, à semana de carnaval em Santo Antonio dos Conjurados.
A Direção de Fernando Limoeiro, dividida com o elenco, não perde a conjuração mineira para dramas concentrados à exploração de quem vê o que parecia estar escondido em cada cristão representado na vida de galinhas. Há um cuidado significativo para a composição da cena geral que varia entre cochos, gamelas, viveiros, oratórios e deuses com pé de barro e picadeiro que empoleira o afã da libido arquejada e as sinuosas torturas à alma fragmentada das estranhas galinhas com espírito de porco que confundem um anjo decaído com galo/zangão.
Tudo culmina para
ambiente inquietante e sufocante das velas e orações. A
Assessoria Artística de
Cris Lozano e
Assistência Artística de
Cláudia Miranda se completam com a
Preparação Corporal de
Vanilton Lakka que dá vigor aos corpos revelados por vezes com + falas acertadas, por outras + emblematizadas. O
trabalho de voz de Mônica Montenegro assegura as melhores inflexões e projeções textuais, mas em alguns momentos delibera o caráter “over” para textos expressos.
A Cenografia de Paulo Merísio não poderia estar melhor aplicada. Subverte a arquitetura do galinheiro confundido com o doce lar das solteironas. Excele medida de ocupação espacial e se funde primorosamente com a Luz de Alexandre Galvão. Os Figurinos,Objetos de cena e Adereços de Flávio Arciole costuram um diálogo que fala por si só. AProdução e Composição Sonora de Cesar Lignelli e a Música de Luiz Salgado delimitam para melhor efeito de absorção a quentura do ambiente prisioneiro e deterministadas “Estranhas Galinhas”.
A escolha para os atores de derrapagem ao melodrama derramado, especialmente nos solos do Anjo(Marcelo Ribas), se não enfraquece a dramaturgia selecionada, distorce o expresionismo que poderia se fincar + na economia de intervenção construtiva da personagem. As Galinhas(Katia Bizinotto, Katia Lourenço e Teta Campos) variam entre ocaricatural apurado e um sinal de presença espelhada no ator e método.
“Estranhas Galinhas” não seca o papo da experimentação, revela que há + grãos de milhos a serem contados no ambiente de vidas cercadas em galinheiro perverso. E nada deverá modificar a escolha para teatro de prática e criação conceitual idealizada peloGrupotapé à repercussão de projetos cênicos.
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